domingo, 8 de dezembro de 2013

"O importante não é vencer, mas competir"


É triste ver seres humanos perdendo a humanidade numa partida de futebol, justamente quando o mundo perde Nelson Mandela, o Homem que fez a impossível reconciliação entre homens na África do Sul, usando o diálogo para acabar com o Apartheid.E aí refletirmos de onde vem tanta violência? Por que ainda há violência no mundo? E ainda por que falta segurança nos estádios (públicos ou privados)? Por que os homens agridem homens? Por que competimos nos esportes? É para gerar violência? Certamente que não. Vamos a um estádio de futebol não para ver violência ou sofrer atos de violência. Muitos menos para testemunhar a desumanidade de homens em desrazão. Vamos para ver os espetáculos dos atletas.

As cenas de hoje mostraram que precisamos lembrar de que ano que vem, vamos ser sede do mundial da FIFA, e nenhum brasileiro quer assistir, na TV, às cenas de violência, de covardia e de negligência das autoridades de segurança e do judiciário. Certamente que não queremos que a Copa no Brasil seja lembrada por episódios como este do jogo entre Vasco e Atlético (PR) em Joinville (SC)(8 de dezembro).


O público no privado e a questão da segurança em eventos abertos

Pergunto-me até que ponto uma partida de futebol, num estádio cheio de cidadãos, seja considerada um evento particular. Também me pergunto o que seja público e o que seja privado, já que a polícia alega que estava fora do estádio porque o evento não era público, mas privado, e que só estava seguindo uma orientação do MP. Aqui estamos diante de outro jogo: o da verdade que se impõe nas formas jurídicas, ou seja, daquilo que algumas autoridades entendem por segurança nos estádios (privados)de jogo de futebol.

Uma partida decisiva para dois times nacionais, pessoas nas arquibancadas, inclusive crianças, emoção, tensão e uma constatação: a ausência da polícia dentro do estádio por causa de um argumento que nos leva a trazer à tona estas questões e outas. O que leva o ministério público a recomendar que a polícia ficasse de fora do estádio onde jogavam Vasco (rebaixado) e Atlético Paranaense em Joinville (SC). Este episódio de violência nos estádios evidencia o que já sabemos: falta de efetivo policial, falta de planejamento e muito dinheiro envolvido. A torcida do Vasco, novamente, é agredida e, (agride ou se defende?). Primeiro, em Brasília. Agora, em Joinville.

O esporte não é lugar para violência. Pelo menos nas partidas de futebol, não se aceita nenhum tipo de violência, seja por parte dos jogadores, seja por parte dos torcedores. Mas a questão evidencia que não se poder fazer copas sem garantir a segurança de todos.

Violência e esporte: uma relação a ser combatida

Em pleno século XXI, continuamos assistindo cenas de guerra nos esportes, ou seja, estádios virando campo de batalha. Homens continuam matando por causa de partidas de futebol...até quando vamos nos perguntar "até quando?".

A violência nos estádios não ocorrem apenas no Brasil, isto é fato. Logo, a FIFA precisar pressionar as autoridades para garantir a segurança dos estádios de futebol em todo o mundo. É preciso fazer alguma coisa mais concreta, como fez Mandela na África do Sul. É preciso investir mais em ações sociais com o dinheiro do futebol.

Já sociedade brasileira precisa lutar não apenas pelo passe-livre, como vimos em julho deste ano, mas contra a violência que nos entristece e nos faz perder a dignidade de ser humano quando somos surpreendidos em uma esquina ou via pública de nossas cidades com a enunciação da frase: "perdeu!" da boca de um assaltante. Havemos de pressionar as autoridades contra a indiferença que violenta os milhares de brasileiros nas periferias das grandes cidades, contra a falta de atendimento médico-hospitalar...


Somos penta?

Somos! De fato, somos. Mas cada título foi conquistado com outro tipo de luta. Não nos orgulhamos da violência nos estádios de futebol, muito menos, fora dele. Mas a coisa é certa: a maioria dos brasileiros se orgulha dos cinco campeonatos conquistados pela seleção brasileira de futebol. Todo mundo se orgulha de Pelé... de como o futebol tem mudado a vida de muitas famílias que viviam precariamente. Mas havemos de lembrar que as mães, desses nos heróis da bola, lutaram para criá-los em meio à violência, à miséria e à dificuldade. Se eles venceram a pobreza e trouxeram essas vitórias, foi graças às lutas e os sacrifícios que tiveram. As vitórias de cada jogador representa transformação social e esperança por mérito de suas famílias e da força de vontade de cada um. Somos pentacampeões graças a eles e não ao governo.Se somos hoje a Pátria de chuteiras, é por causa desses nossos heróis de chuteiras.Mas não podemos mais aceitar que os lugares onde as chuteiras brilham se transforme em campo de guerra. Os estádios não podem reproduzir cenas de violência como aquelas do Coliseu quando os cristãos eram devorados pelos leões. Não podemos aceitas mais tanta violência. As conquistas do passado são méritos de nossos jogadores. As do futuro, somos nós que devemos refletir se queremos que fiquem a cargo da luta dos nossos jovens e de suas famílias. Será que nossos atletas têm que passar por isso para chegar o chegou Pelé, Neymar ou Zico?


Havemos de pensar que ainda convivemos com a violência, com os "perdeu" nosso de cada dia, da vida de muitos jovens que ainda vivem em situação de risco por causa da falta de escolas,de alimentação, de moradia,de saúde...Mas sonham com a fama de ser jogador de futebol e chegar a seleção. Cada jogador da seleção sabe o que passou para conquista um dos títulos que nos orgulha. Cada um conseguiu vencer estas adversidades que ainda persistem em nosso país.É emocionante ouvir nosso hino numa partida de futebol porque lembramos das lutas dos jogadores e das nossas lutas de cada dia. É de arrepiar, muitos até esquecem a letra do hino e de que quando não é cantado, apenas tocada, não precisa cantá-lo, mas cantamos. Deixamos a voz sair para esconder as lágrimas. Cada jogador da seleção brasileira é um vencedor.Cada jogador do Vasco com a sua derrota é já um vencedor por tudo que passaram na vida, assim como os Fluminense, e dos outros dois rebaixados para a segundona.

Vitórias e derrotas fazem parte do mundo dos esportes. As vitórias dos nossos times do coração nos alegram. Suas derrotas nos entristecem, mas a violência nos estádios e fora deles além de nos envergonhar, evidenciam que não podemos deixar ao acaso o planejamento da segurança. É preciso garantir a segurança das pessoas: atletas, árbitros, torcedores...

O Mundial de Futebol e as Olimpíadas trarão melhorias para o país, mas a violência e a falta de segurança ameaçam ainda os espetáculos. Ameaçam as conquistas esportivas. Ameaçam as vidas que vão aos estádios e que sofrem atos de violência tanto dentro quanto fora.

As imagens do jogo Vasco e Atlético (PR) não mostram apenas torcedores enlouquecidos; mas, a falta de segurança, o despreparo, e a negligência das autoridades. Deste lamentável episódio que se soma a outros vêm uma nova questão jurídica e linguística: o que é público e o que é privado no Brasil?

A ausência de efetivo policial dentro do estádio em Joinville (SC) parece ter sido justificada por uma orientação meio equivocada, para não dizer, demasiadamente equivocada, de um membro do MP, que considera as partidas em eventos particulares aberto ao público: seja privado! Daí vem a questão: qual o sentido de privado e qual o sentido de público?

Até que ponto um espaço aberto ao público em geral é privado? Será que é privado da segurança pública? Seria este entendimento? Talvez devesse convocar um linguista ou um lexicólogo da língua Portuguesa ou até um imortal da Acadêmia Brasileira de Letras para explicar o que significa público e o que seja privado na nossa língua. Será que as palavras da língua não cabem na constituição? Na linguagem do judiciário?

Os eventos esportivos não devem ser encarados como privados, uma vez que milhares de cidadão estão num espaço que está aberto ao público em geral. A noção de privado não cabe quando o evento é público,ou seja, aberto ao publico. Este episódio também demonstra o risco que corremos em eventos considerados privados e, ao mesmo tempo, os equívocos cometidos pelas autoridade que estão a cargo da fiscalização e manutenção das leis.


Estas imagens mostram mais do que a desrazão de torcedores fanáticos que cometem atos de violência







Estamos vendo violência? Sim, mas uma série de violência: a da insegurança, a da negligência e, sobretudo, a da impotência. Quando assistimos pela TV, ficamos a pensar: o que podemos fazer? Quando isso vai acabar? Será que basta apenas prender os culpados? O que vão fazer de agora em diante os organizadores da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016? Não sabemos. Tudo fica ao acaso. E o despreparo mostra que a nossa sociedade cada vez mais se torna violenta, porque a se banalizou a violência. Ela, cada vez mais, substitui o espetáculo do esporte pelo espetáculo da selvageria, da desumanidade...Parece que ainda não aprendemos a lição. A violência continua nos estádios e fora dos estádios. E as autoridades assistem como espectadores àquilo que poderia ser evitado. Até quando vamos assistir à cenas de violência como estas? Continuamos nos perguntando e esperando uma resposta das autoridades. Resta nos valer das imagens de verdadeiros homens para trazer à nossa memória para que serve os esportes, os estádios de futebol e o que é ser homem.

Assim, evocamos as imagens de Pierre de Coubertin, de Mandela, de Pelé para trazer a nossa memória o que o homem pode fazer para ser mais do que um animal homem, ou seja, pensa no bem estar dos outros homens e lutar contra a desumanidade que promove a violência e a intolerância:

Pierre de Coubertin


Pelé



Nelson Mandela


Essa discussão sobre as cenas de violência dentro e fora dos estádios é mais que um desabafo de um brasileiro que espera das autoridades. É uma confissão de fé de quem acredita no poder dos esportes, do amor das mães e das famílias de nossos jogares de futebol que vivem do esporte, e que venceram a pobreza pelo esporte. De quem crê no poder da palavra, do diálogo e na educação pelo esporte como acreditou Pierre de Coubertin.

Não podemos permitir que o esporte seja motivo para se praticar a violência, nem tão pouca deixa que autoridades coloquem a vida das pessoas em risco. O esporte é para celebrar o milagre da vida, a conquista de quem consegue vencer a violência irracional de cada dia, a violência da fome, da falta de escola, hospitais, da falta de segurança, da falta de felicidade. O esporte é para apresentar espetáculos, em que os homens superem seus limites.

Somos penta sim, mas não queremos continuar com os espetáculos de corpos humanos em estado de selvageria, de desumanidade, praticando cenas de horror em pleno. Aqui fica a moral da história: precisamos investir na segurança publica, na educação para evitar que cenas como estas continuem a serem exibidas na TV e nos estádios de futebol.O que diria o barão Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos, se visse estas cenas que testemunharam os meios de comunicação. Sua célebre frase de "O importante não é vencer, mas competir" deve ser traduzida por outra, ou seja,"Violência não é um sinal de força, a violência é um sinal de desespero e fraqueza", lembra-nos o Dalai Lama.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Entrevista de Michel Foucault a Revista "Quel corps?" em setembro de 1975 (texto original)







Pouvoir et corps Quel corps?, no 2, septembre-octobre 1975, pp. 2-5. (Entretien de juin 1975.)Dits et Ecrits : tome II, texte n°157



- Dans Surveiller et Punir, vous illustrez un système politique où le corps du roi joue un rôle essentiel...


- Dans une société comme celle du XVIIe siècle, le corps du roi, ce n'était pas une métaphore, mais une réalité politique : sa présence physique était nécessaire au fonctionnement de la monarchie.



- Et la république «une et indivisible» ?



- C'est une formule imposée contre les Girondins, contre l'idée d'un fédéralisme à l'américaine. Mais jamais elle ne fonctionne comme le corps du roi sous la monarchie. Il n'y a pas de corps de la République. Par contre, c'est le corps de la société qui devient, au cours du XIXe siècle, le nouveau principe. C'est ce corps-là qu'il faudra protéger, d'une manière quasi médicale : au lieu des rituels par lesquels on restaurait l'intégrité du corps du monarque, on va appliquer des recettes, des thérapeutiques telles que l'élimination des malades, le contrôle des contagieux, l'exclusion des délinquants. L'élimination par le supplice est ainsi remplacée par des méthodes d'asepsie : la criminologie, l'eugénisme, la mise à l'écart des «dégénés»...


- Existe-t-il un fantasme corporel au niveau des différentes institutions ?



- Je crois que le grand fantasme, c'est l'idée d'un corps social qui serait constitué par l'universalité des volontés. Or ce n'est pas le consensus qui fait apparaître le corps social, c'est la matérialité du pouvoir sur le corps même des individus.


- Le XVIIIe siècle est vu sous l'angle de la libération. Vous le décrivez comme la mise en place d'un quadrillage. L'un peut-il aller sans l'autre ?


- Comme toujours dans les rapports de pouvoir, on se trouve en présence de phénomènes complexes qui n'obéissent pas à la forme hégélienne de la dialectique. La maîtrise, la conscience de son corps n'ont pu être acquises que par l'effet de l'investissement du corps par le pouvoir : la gymnastique, les exercices, le développement musculaire, la nudité, l'exaltation du beau corps... tout cela est dans la ligne qui conduit au désir de son propre corps par un travail insistant, obstiné, méticuleux que le pouvoir a exercé sur le corps des enfants, des soldats, sur le corps en bonne santé. Mais, dès lors que le pouvoir a produit cet effet, dans la ligne même de ses conquêtes, émerge inévitablement la revendication de son corps contre le pouvoir, la santé contre l'économie, le plaisir contre les normes morales de la sexualité, du mariage, de la pudeur. Et, du coup, ce par quoi le pouvoir était fort devient ce par quoi il est attaqué... Le pouvoir s'est avancé dans le corps, il se trouve exposé dans le corps même... Souvenez-vous de la panique des institutions du corps social (médecins, hommes politiques) à l'idée de l'union libre ou de l'avortement... En fait, l'impression que le pouvoir vacille est fausse, car il peut opérer un repli, se déplacer, investir ailleurs, ...et la bataille continue.


- Ce serait l'explication de ces fameuses «récupérations» du corps par la pornographie, la publicité ?

- Je ne suis pas tout à fait d'accord pour parler de «récupération». C'est le développement stratégique normal d'une lutte... Prenons un exemple précis, celui de l'auto-érotisme. Les contrôles de la masturbation n'ont guère commencé en Europe qu'au cours du XVIIIe siècle. Brusquement, un thème panique apparaît : une maladie épouvantable se développe dans le monde occidental : les jeunes gens se masturbent. Au nom de cette peur s'est instauré sur le corps des enfants -à travers les familles, mais sans qu'elles en soient à l'origine -un contrôle, une surveillance de la sexualité, une mise en objectivité de la sexualité avec une persécution des corps. Mais la sexualité, en devenant ainsi un objet de préoccupation et d'analyse, comme cible de surveillance et de contrôle, engendrait en même temps l'intensification des désirs de chacun pour, dans et sur son propre corps...

Le corps est devenu l'enjeu d'une lutte entre les enfants et les parents, entre l'enfant et les instances de contrôle. La révolte du corps sexuel est le contre-effet de cette avancée. Comment répond le pouvoir ? Par une exploitation économique (et peut-être idéologique) de l'érotisation, depuis les produits de bronzage jusqu'aux films pornos... En réponse même à la révolte du corps, vous trouvez un nouvel investissement qui ne se présente plus sous la forme du contrôle-répression, mais sous celle du contrôle-stimulation : «Mets-toi nu... mais sois mince, beau, bronzé !» À tout mouvement d'un des deux adversaires répond le mouvement de l'autre. Mais ce n'est pas de la «récupération» au sens où en parlent les gauchistes. Il faut accepter l'indéfini de la lutte... Cela ne veut pas dire qu'elle ne finira pas un jour...

- Une nouvelle stratégie révolutionnaire de prise du pouvoir ne passe-t-elle pas par une nouvelle définition d'une politique du corps ?


- C'est dans le déroulement d'un processus politique -je ne sais pas s'il est révolutionnaire -qu'est apparu, avec de plus en plus d'insistance, le problème du corps. On peut dire que ce qui s'est passé depuis 1968 -et vraisemblablement ce qui l'a préparé -était profondément antimarxiste. Comment les mouvements révolutionnaires européens vont-ils pouvoir s'affranchir de l'« effet Marx», des institutions propres du XIXe et du XXe siècle ? Telle était l'orientation de ce mouvement. Dans cette remise en question de l'identité marxisme = processus révolutionnaire, identité qui constituait une espèce de dogme, l'importance du corps est l'une des pièces importantes, sinon essentielles.

Quelle est l'évolution du rapport corporel entre les masses et l' appareil d'État ?

- Il faut d'abord écarter une thèse très répandue selon laquelle le pouvoir dans nos sociétés bourgeoises et capitalistes aurait nié la réalité du corps au profit de l'âme, de la conscience, de l'idéalité. En effet, rien n'est plus matériel, rien n'est plus physique, plus corporel que l'exercice du pouvoir... Quel est le type d'investissement du corps qui est nécessaire et suffisant au fonctionnement d'une société capitaliste comme la nôtre ? Je pense que, du XVIIIe siècle au début du XXE, on a cru que l'investissement du corps par le pouvoir devait être lourd, pesant, constant, méticuleux. D'où ces régimes disciplinaires formidables qu'on trouve dans les écoles, les hôpitaux, les casernes, les ateliers, les cités, les immeubles, les familles... et puis, à partir des années soixante, on s'est rendu compte que ce pouvoir si pesant n'était plus aussi indispensable qu'on le croyait, que les sociétés industrielles pouvaient se contenter d'un pouvoir sur le corps beaucoup plus lâche. On a dès lors découvert que les contrôles de la sexualité pouvaient s'atténuer et prendre d'autres formes... Reste à étudier de quel corps la société actuelle a besoin...


- Votre intérêt pour le corps se démarque-t-il des interprétations actuelles ?


- Je me démarque, me semble-t-il, à la fois de la perspective marxiste et paramarxiste. Concernant la première, je ne suis pas de ceux qui essaient de cerner les effets de pouvoir au niveau de l'idéologie. Je me demande en effet si, avant de poser la question de l'idéologie, on ne serait pas plus matérialiste en étudiant la question du corps et des effets du pouvoir sur lui. Car, ce qui me gêne dans ces analyses qui privilégient l'idéologie, c'est qu'on suppose toujours un sujet humain dont le modèle a été donné par la philosophie classique et qui serait doté d'une conscience dont le pouvoir viendrait s'emparer.


- Mais il y a, dans la perspective marxiste, la conscience de l'effet de pouvoir sur le corps dans la situation de travail.



- Bien sûr. Mais alors qu'aujourd'hui les revendications sont plus celles du corps salarié que celles du salariat, on n'en entend guère parler en tant que telles... Tout se passe comme si les discours «révolutionnaires» restaient pénétrés de thèmes rituels qui se réfèrent aux analyses marxistes. Et, s'il y a des choses très intéressantes sur le corps chez Marx, le marxisme -en tant que réalité historique -l'a terriblement occulté au profit de la conscience et de l'idéologie...

Il faut aussi se démarquer des paramarxistes comme Marcuse qui donnent à la notion de répression un rôle exagéré. Car, si le pouvoir n'avait pour fonction que de réprimer, s'il ne travaillait que sur le mode de la censure, de l'exclusion, du barrage, du refoulement, à la manière d'un gros surmoi, s'il ne s'exerçait que d'une façon négative, il serait très fragile. S'il est fort, c'est qu'il produit des effets positifs au niveau du désir -cela commence à être su -et aussi au niveau du savoir. Le pouvoir, loin d'empêcher le savoir, le produit. Si on a pu constituer un savoir sur le corps, c'est au travers d'un ensemble de disciplines militaires et scolaires. C'est à partir d'un pouvoir sur le corps qu'un savoir physiologique, organique était possible.

L'enracinement du pouvoir, les difficultés qu'on éprouve à s'en déprendre viennent de tous ces liens. C'est pourquoi la notion de répression à laquelle on réduit généralement les mécanismes du pouvoir me paraît très insuffisante et peut-être dangereuse.


- Vous étudiez surtout les micro-pouvoirs qui s'exercent au niveau du quotidien. Ne négligez-vous pas l'appareil d'État ?


- En effet, les mouvements révolutionnaires marxistes et marxisés depuis la fin du XIXe siècle ont privilégié l'appareil d'État comme cible de la lutte.

À quoi cela a finalement mené ? Pour pouvoir lutter contre un État qui n'est pas seulement un gouvernement, il faut que le mouvement révolutionnaire se donne l'équivalent en termes de forces politico-militaires, donc qu'il se constitue comme parti, modelé de l'intérieur -comme un appareil d'État, avec les mêmes mécanismes de discipline, les mêmes hiérarchies, la même organisation des pouvoirs. Cette conséquence est lourde. En second lieu, la prise de l'appareil d'État -et ce fut une grande discussion à l'intérieur même du marxisme -doit-elle être considérée comme une simple occupation avec d'éventuelles modifications, ou bien être l'occasion de sa destruction ? Vous savez comment s'est réglé finalement ce problème : il faut miner l'appareil, mais pas jusqu'au bout, puisque, dès que la dictature du prolétariat s'établira, la lutte des classes ne sera pas pour autant terminée... Il faut donc que l'appareil d'État soit suffisamment intact pour qu'on puisse l'utiliser contre les ennemis de classe. On en arrive à la seconde conséquence : l'appareil d'État doit être reconduit, au moins jusqu'à un certain point, pendant la dictature du prolétariat. Enfin, troisième conséquence : pour faire marcher ces appareils d'État qui seront occupés mais non brisés, il convient de faire appel aux techniciens et aux spécialistes. Et, pour ce faire, on utilise l'ancienne classe familiarisée avec l'appareil, c'est-à-dire la bourgeoisie. Voilà sans doute ce qui s'est passé en U.R.S.S. Je ne prétends pas du tout que l'appareil d'État ne soit pas important, mais il me semble que parmi toutes les conditions qu'on doit réunir pour ne pas recommencer l' expérience soviétique, pour que le processus révolutionnaire ne s'ensable pas, l'une des premières choses à comprendre, c'est que le pouvoir n'est pas localisé dans l'appareil d'État et que rien ne sera changé dans la société si les mécanismes de pouvoir qui fonctionnent en dehors des appareils d'État, au-dessous d'eux, à côté d'eux, à un niveau beaucoup plus infime, quotidien, ne sont pas modifiés.


- Venons-en justement aux sciences humaines, à la psychanalyse en particulier...


- Le cas de la psychanalyse est effectivement intéressant. Elle s'est établie contre un certain type de psychiatrie (celle de la dégénérescence, de l'eugénisme, de l'hérédité). C'est cette pratique et cette théorie -représentées en France par Magnan -qui ont constitué son grand repoussoir. Alors, effectivement, par rapport à cette psychiatrie-là (qui reste d'ailleurs la psychiatrie des psychiatres d'aujourd'hui), la psychanalyse a joué un rôle libérateur. Et, dans certains pays encore (je pense au Brésil), la psychanalyse jouait un rôle politique positif de dénonciation de la complicité entre les psychiatres et le pouvoir. Voyez ce qui se passe dans les pays de l'Est. Ceux qui s'intéressent à la psychanalyse ne sont pas les plus disciplinés des psychiatres...

Il n'en reste pas moins que, dans nos sociétés à nous, le processus continue et s'est investi autrement... La psychanalyse, dans certaines de ses performances, a des effets qui rentrent dans le cadre du contrôle et de la normalisation.

Si l'on arrive à modifier ces rapports ou à rendre intolérables les effets de pouvoir qui s'y propagent, on rendra beaucoup plus difficile le fonctionnement des appareils d'État...

Autre avantage à faire la critique des rapports au niveau infime :

à l'intérieur des mouvements révolutionnaires, on ne pourra plus reconstituer l'image de l'appareil d'État.


- À travers vos études sur la folie et la prison, on assiste à la constitution d'une société toujours plus disciplinaire. Cette évolution historique paraît guidée par une logique quasi inéluctable...



- J'essaie d'analyser comment, au début des sociétés industrielles, s'est mis en place un appareil punitif, un dispositif de tri entre les normaux et les anormaux. Il me faudra ensuite faire l'histoire de ce qui s'est passé au XIXe siècle, montrer comment, à travers une série d'offensives et de contre-offensives, d'effets et de contre-effets, on a pu arriver à l'état actuel très complexe des forces et au profil contemporain de la bataille. La cohérence ne résulte pas de la mise au jour d'un projet, mais de la logique des stratégies qui s'opposent les unes aux autres. C'est dans l'étude des mécanismes de pouvoir qui ont investi les corps, les gestes, les comportements qu'il faut édifier l'archéologie des sciences humaines.

Elle retrouve, d'ailleurs, l'une des conditions de son émergence : le grand effort de mise en discipline et de normalisation poursuivi par le XIXe siècle. Freud le savait bien. En fait de normalisation, il avait conscience d'être plus fort que les autres. Alors qu'est-ce que c'est que cette pudeur sacralisante qui consiste à dire que la psychanalyse n'a rien à voir avec la normalisation ?


- Quel est le rôle de l'intellectuel dans la pratique militante ?

- L'intellectuel n'a plus à jouer le rôle de donneur de conseils. Le projet, les tactiques, les cibles qu'il faut se donner, ce sont à ceux-là mêmes qui se battent et se débattent de les trouver. Ce que l'intellectuel peut faire, c'est donner des instruments d'analyse, et, actuellement, c'est essentiellement le rôle de l'historien. Il s'agit, en effet, d'avoir du présent une perception épaisse, longue, qui permette de repérer où sont les lignes de fragilité, où sont les points forts, à quoi se sont rattachés les pouvoirs -selon une organisation qui a maintenant cent cinquante ans -, où ils se sont implantés. Autrement dit, faire un relevé topographique et géologique de la bataille... Voilà le rôle de l'intellectuel. Mais quant à dire : voilà ce qu'il faut que vous fassiez, certainement pas.


- Qui coordonne l'action des agents de la politique du corps ?


- C'est un ensemble extrêmement complexe à propos duquel on est obligé de se demander finalement comment il peut être si subtil dans sa distribution, dans ses mécanismes, ses contrôles réciproques, ses ajustements, alors qu'il n'y a personne pour avoir pensé l'ensemble, C'est une mosaïque très enchevêtrée. À certaines époques, des agents de liaison apparaissent... Prenez l'exemple de la philanthropie au début du XIXe siècle : des gens viennent se mêler de la vie des autres, de leur santé, de l'alimentation, du logement... Puis de cette fonction confuse sont sortis des personnages, des institutions, des savoirs... une hygiène publique, des inspecteurs, des assistantes sociales, des psychologues. Puis, maintenant, on assiste à une prolifération de catégories de travailleurs sociaux...

Naturellement, la médecine a joué le rôle fondamental de dénominateur commun... Son discours passait de l'un à l'autre. C'est au nom de la médecine qu'on venait voir comment étaient installées les maisons, mais aussi en son nom qu'on cataloguait un fou, un criminel, un malade... Mais il y a -en fait -une mosaïque très variée de tous ces «travailleurs sociaux» à partir d'une matrice confuse comme la philanthropie...

L'intéressant, c'est de voir non pas le projet qui a présidé à tout cela, mais de voir en termes de stratégie comment les pièces se sont mises en place.




Fonte: 1libertaire.free.fr/MFoucault219.html

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

FOUCAULT, SADE E AS LUZES 2013

Foucault, Sade e as Luzes: o que nos interessa nesta relação? (Alex Araújo)

Déchiffrer le corps de Jean-Jacques Courtine pela Vozes (a versão brasileira)

Chega, nas livrarias brasileiras, a tradução do livro Déchiffrer le corpos: Penser avec Foucault (Decifrar o corpo: pensar com Foucault) de Jean-Jacques Courtine, pesquisador francês que atuou no CNRS na França nos anos de 1970 ao lado de Michel Pêcheux, expoente máximo da Escola Francesa de Análise do Discurso, muito difundida no Brasil.O livro trata do corpo sob uma pespequitiva foucaultiana em que o corpo é tomado como objeto de pesquisas epistemológicas de uma certa tradição francesa. Courtine também é organizador de importantes coletâneas cuja temática é sempre o corpo como a Histório do Corpo e História da Virilidade:
Jean-Jacques Courtine tem atuado em diversas universidades mundo a fora, a exemplo dos Estados Unidos, onde é professor emérito na Universidade de Santa Bárbara (Califórnia); da França, na universidade Paris III, da Nova Zelândia,na University of Auckland, dentre outras. Esteves diversas vezes presente no Brasil, participado de eventos de Análise do Discurso.
A edição brasileira de Decifrar o corpo: pensar com Foucault, publicada pela editora Vozes, foi traduzida por Francisco Morás(2013). "Este livro percorre livremente, entre a Idade Clássica e a contemporânea". Para o autor, "a decifração do corpo" parece constituir a preocupação central na genealogia de Foucault, a "fornece seu eixo, e seu sentido, a este trabalho: discernir a impregnação profunda da história sobre o corpo, antes que ela mesma não apague" (p.9). O capítulo I resulta de uma série de entrevistas que o autor concedeu a vários pesquisadores brasileiros entre 2005 e 2009, dos quais destacamos Cleudemar Alves Fernandes(Ladif/UFU), Nilton Milanez (Labedisco/UESB), Carlos Piovesani e Vanice Sargentini (UFSCar). Nestas entrevistas Courtine fala de percurso acerca da intericonicidade, que o autor concebe como rede de imagens que os indivíduos traz em sua memória. Esta rede é resultante do contato do ser humano com uma cultura imagética ou visual que pode ser explorada pelas ciências humanas, sobretudo, pela antropologia, sociologia e pela história.

A linguagem como parte do corpo na Linguística chomskiana

Talvez, a palavra (escrita ou falada) possa ser a senha de entrada no nosso mundo, mas este fato não é tão simples como parece ser porque não se trata da linguagem com a perfeição da linguagem adâmica ou da relação arbitrária do significante com o significado. Poderíamos dizer que a palavra pode ser a senha para entrar não só no mundo, mas em mundos. Por outro lado, seria possível conhecer de fato o mundo do outro como ele é realmente (sem representação ou interferência da linguagem)? Como atua o inconsciente na constituição de linguagem e da palavra, já que o inconsciente é coletivo? Bastaria pensar para existir? O pensamento pode ser de fato representado de forma precisa como sugere a lógica aristotélica? Estas são algumas provocações. Inicialmente, gostaria de refletir sobre língua e linguagem para em seguida entrar nas questões da representação por meio da língua e da linguagem. Tomemos o enunciado de autoria de Noam Chomsky sobre a linguagem: “A faculdade de linguagem parece ser uma verdadeira ‘propriedade da espécie’, variando pouco entre as pessoas e sem um correlato significativo em qualquer parte” o que ele quis dizer com isso? Esse movimento que faço ao fazer uma interrogação sobre o entendimento do enunciado gerado por Chomsky, ilustra um pouco o fato de que desejamos encontrar um sentido único para todos e nessa busca fica evidente que a relação da palavra com a coisa representada é um relação tensa e conflituosa porque envolve a questão da subjetividade e da alteridade. Neste jogo complexo que é a linguagem, a idéia adâmica de linguagem de que há um nome para cada ser nomeado por Adão e o fato de Adão ser/existir por causa da palavra pronunciada pela vontade do Criador, nos leva a crer que representar é criar. Mas para que representar? Por que representar? A palavra pode representar algo com precisão?
Por que perguntar, se sou Humano, se sou Linguagem e produzo aqui enunciados em língua materna? Parece-me nesse sentido que Jacques Derrida diz: “mesmo quando só temos uma língua materna e estamos enraizados em nosso local de nascimento e em nossa língua, mesmo nesse caso, a língua não pertence.” Assim, data vênia, não há falante-ouvinte ideal mesmo na língua materna, porque a língua traz desafios. O perguntar é a tentativa de encontrar o entendimento, a busca pela precisão da palavra partilhada, é uma atividade da linguagem para se apropriar da Linguagem. Nessa luta corporal se não a marco, sou marcado por ela. Essas questões nos tocam diretamente enquanto seres da linguagem e temos procurado encontrar respostas. Por isso, procuramos domesticar a palavra que resiste que luta contra a banalização, a trivialização, a mecanização, a letargização que podem matar a ação de traduzir (busca de significados). Eis aqui o poder da palavra: gerar a busca, gerar o homem que busca gerar a humanidade de ser homem que busca traduzir os mistérios da linguagem que habita o ser por meio da própria palavra que é linguagem. Quem pode traduzir o amor?(ou melhor, que palavra pode fazer representar toda complexidade dele?).

O corpo de Mandela e a ausência de sua presença

O corpo de Nelson Mandela parou. Os sinais vitais do líder sul-africano o deixaram aos 95 anos de vida. Sua voz, seus gestos, que durante anos estiveram atentos à vida de seu povo, pararam para sempre. Agora seu corpo descansa eternamente. A nação perde seu filho, seu bravo guerreiro. O povo, seu pai, e o mundo um símbolo do poder do diálogo, um homem de verdade.
Haveria de haver um enorme vazio, mas não há. O espírito do guerreiro Zulu está liberto do corpo humano, mas, agora habita a terra. Volta ao pó. Sua ausência física, agora, se perpetua numa presença eterna de um homem que nos ensinou a usar o diálogo para promover a paz entre nós.
Aqui, fazemos nossa homenagem, neste dia, em que o mundo lamenta sua perda, Mandela. Mas sabemos que os guerreiros zulus não morrem nunca.Descanse Mandela, já que a paz, você nos deixou como legado. Você reconciliou pelo diálogo homens, antes separados pela cor da pele, pela palavra Apartheid que parecia uma tatuagem que nunca iria sair da pele.

Nunca mais haveremos de ver na África do Sul isso:


Graças a você, Mandela. Obrigado..."Hamba Kahle Madiba" (em zulu). O mundo referencia, você, guerreiro zulu da Paz que uniu a África do Sul numa só pátria.

A revista do corpo

O corpo em revista inicia suas atividades com a retomada das questões lançadas na revista "Quel corps?". Aqui, o corpo é tratado como discurso, ou seja, na ordem das palavras e das coisas que surgem nas sociedades de discursos. É como discurso que podemos desarmar o corpo ao refletir sobre os dispositivos que emergem nestas sociedades.
Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês do nosso tempo, empreendeu uma série de estudos em que o corpo aparece atrelado atrelado a um biopoder advindo de uma biopolítica. Em História da Loucura na Idade Clássica, livro publicado em 1961, o corpo aparece na discussão sobre a razão e a desrazão num percurso epistemológico; já em As palavras e as coisas:uma arqueologia das ciências humanas, o corpo está ligado ao aparecimento das ciências humanas, aos saberes que vão constituir a ordem dos sistemas de pensamentos daquilo que conhecemos como modernidade. Após o seu ingresso no célebre Collège de France, em 2 de dezembro de 1970, Foucault dará uma série de cursos em que o corpo aparece ligado aos dispositivos da segurança dos Estados modernos, no nascimento das prisões (Vigiar e punir),e, sobretudo,aos dispositivos da sexualidade nos três volumes de História da Sexualidade.
Para ir mais longe, confira as obras assinadas por Michel Foucault: Doença Mental e Psicologia (1954) História da loucura na idade clássica (1961) Nascimento da clínica (1963) As palavras e as coisas (1966) Arqueologia do saber (1969) Vigiar e punir (1975) História da sexualidade: A vontade de saber (1976) O uso dos prazeres (1984) O Cuidado de Si (1984) Ditos e escritos (2006) Teorias e instituições penais (1971-1972) A sociedade punitiva (1972-1973) O poder psiquiátrico (1973-1974) Os anormais (1974-1975) Em defesa da sociedade (1975-1976) Segurança, território e população (1977-1978) Nascimento da biopolítica (1978-1979) Microfísica do Poder (1979) Do governo dos vivos (1979-1980) Subjetividade e verdade (1980-1981) A hermenêutica do sujeito (1981-1982)

O corpo em revista

O corpo em revista nasceu das reflexões abertas pela Revista Francesa "Quel corps?" que trazia em sua primeira edição em 1975 como questão principal: "De quoi parle-t-on quand il est question du corps?" (De que se fala quando a questão é o corpo?). Dessa forma,Jean-Marie Brohm, diretor da revista, convidava os leitores a adentrar num percurso que teve como principais colaboradores Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Jean-François Lyotard,Vladimir Jankélévitch, Jean-François Lyotard, Louis-Vincent Thomas, Paul Virilio, dentre outros. Estes nomes próprios estão, de certa forma, ligados ao trabalho de Merleau Ponty, que ministrou seus cursos na Sorbonne, tendo como alunos alguns destes notáveis colaboradores de revista fundada por Jean-Marie Brohm.
Jean-Marie Brohm Este periódico teve seu último número publicado em 1995. De la para cá, outros trabalhos surgiram,mas, tomando como porto de partida as discussões realizadas na "Quel corps?" de Jean-Marie Brohm.